Você se preocupa com a aprovação dos outros?
Na sociedade descrita pelo pensador Zygmunt Bauman, a visibilidade funciona como forma de reconhecimento social, enquanto a invisibilidade tende a produzir marginalização e irrelevância no espaço público. Esse resumo da nossa sociedade contemporânea traz o impacto do outro sobre nós. Será que nos preocupamos muito com a aprovação dos outros, ainda que da boca para fora não assumamos?
Um relato do evangelista João pode nos ajudar a entender e lidar com essa situação que perpassa os séculos.
Um ambiente social que estava vazio
Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. (Jo 4, 5-6).
O poço era o local onde as pessoas buscavam água, fundamental para o dia a dia de todos da comunidade. Portanto, era um ambiente que costumeiramente as pessoas se encontravam. Porém, o ambiente estava aparentemente vazio devido ao horário – meio-dia – em que a temperatura pode chegar facilmente a 30–34 °C, com clima seco e sol forte.
Foi naquele ambiente e horário que chegou uma mulher samaritana, com quem Jesus iniciou um diálogo.
Um coração desconfiado
Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. (…) A mulher samaritana disse então a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. A mulher disse a Jesus: “Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?” (Jo 4, 7;9;11-12).
É interessante observar a forma ríspida e desconfiada com que a mulher se dirige a Jesus. Geralmente é desse modo que um coração machucado reage ao outro. É uma forma de se proteger.
Jesus acolhe o coração verdadeiro

📷 Christ and the Woman of Samaria (1681) | Pierre Mignard (French, 1612-1695)
À medida que a conversa avança, Jesus – como que em um teste para o coração daquela mulher – a provoca perguntando sobre seu marido. E a resposta surpreende.
Disse-lhe Jesus: “Vai chamar teu marido e volta aqui”.A mulher respondeu: “Eu não tenho marido”. Jesus disse: “Disseste bem, que não tens marido, pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade”. A mulher disse a Jesus: “Senhor, vejo que és um profeta! (Jo 4, 16-19).
Ora, é claro que Jesus sabia que ela não tinha marido, mas preferiu ouvir da boca dela. E ela confidenciou a sua verdade.
Os discípulos ficaram admirados
Diz o evangelista que os discípulos ficaram “admirados de ver Jesus falando com a mulher.” (Jo, 4, 27). Havia ali um contexto importante sobre o preconceito dos judeus com os samaritanos, e há o fato de ser uma mulher, o que potencializava na época, o “escândalo” do diálogo.
O coração transformado torna-se livre
Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?” O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus. (Jo 4, 28-30).
Imagino que à época, ela não deveria ter uma reputação tão boa devido aos diversos relacionamentos. Talvez isso explique o fato de ela ir ao poço meio-dia, horário que ela sabia que o poço estaria vazio. Era uma forma segura de buscar a água sem ter que se submeter a olhares ou humilhações.
Entretanto, após uma conversa franca com Jesus, a mulher que evitava o ambiente social com medo de ser julgada, foi até as pessoas. E sua atitude foi tão real e concreta, que motivou os outros a deixarem o que estavam fazendo e procurar a Jesus.
É interessante que por vezes nossos pecados ou – se preferir – defeitos, nos fazem evitar o encontro com o outro. Essa dinâmica até abordamos recentemente no texto “Por que machucamos quem mais amamos?”. Porém, quando reconhecemos a nossa verdade, a aprovação dos outros torna-se secundária.
O encontro que foi preparado
Ao ler o texto, temos a impressão de que o encontro foi preparado por Jesus: um desvio de rota, um horário alternativo, a iniciativa da conversa… e é Jesus quem pede a água, parecendo estar sedento por esse encontro.
Quando reconhecemos a nossa verdade, a aprovação dos outros torna-se secundária.
Jesus – continua o evangelista – ficou em Samaria por dois dias.
Um encontro atual
Em nosso contexto atual, existe um apelo grande pela aprovação dos outros. Nossa primeira reação para quase tudo está em mostrar o que comemos, por onde andamos, quantas horas treinamos, e como somos incríveis. Zygmunt Bauman resume esse comportamento com a frase que “na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.”
Assim como aquela mulher, buscamos cotidianamente a aprovação dos outros. Porém, é curioso que aqueles que se dizem mais liberais são os primeiros a julgar e expor os erros dos outros, quando esses deixam de seguir a sua ideologia. Jesus assume a iniciativa e não julga, não condena e não se importa com o “escândalo” de vir até nós – mesmo com todas as nossas falhas – e nos dar uma oportunidade de uma vida nova.
Referências
Bíblia de Jerusalém, editora Paulus.
📷 Meinungsdifferenzen Juden im Gespräch (1885) | Leo Reiffenstein (Austrian, 1856-1924)