É preciso ter opinião para tudo?
Jesus foi para o monte das Oliveiras. Ao romper da manhã, voltou para o templo, e todo o povo foi ter com ele, e ele, sentado, os ensinava. Então os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; puseram-na no meio, e disseram-lhe: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Ora Moisés na lei mandou-nos apedrejar tais mulheres, Que dizes tu, pois?” Diziam isto para lhe armar um laço, a fim de o poderem acusar. Porém Jesus, inclinando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Continuando, porém, eles a interrogá-lo, levantou-se, e disse-lhes: “O que de vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire a pedra.” (JO 8: 1-7)
Ora, ao navegar por poucos minutos em qualquer uma das redes sociais, tenho a impressão de que após essa provocação de Jesus a mulher seria apedrejada.
As pessoas estão cheias de si mesmo
A valorização do “eu” e da autopromoção parece ter tomado o centro da vida, com um constante incentivo para que cada pessoa exiba suas conquistas e afirme opiniões como se fossem provas de superioridade. No entanto, essa confiança excessiva muitas vezes esconde a falta de preparo real.
Pessoas que se apoiam apenas na imagem que transmitem ou na autoestima inflada podem se ver despreparadas diante de desafios concretos, como uma decisão profissional ou a gestão de conflitos em relações pessoais.
Entre certezas rápidas e a ignorância disfarçada
As redes sociais potencializam e abrem espaço para que as pessoas expressem uma opinião sobre tudo, mesmo sobre temas que nem conhecem direito, e julguem os outros com base nessas opiniões superficiais. Basta uma notícia rápida ou um título mais provocante para que surjam julgamentos e certezas absolutas, muitas vezes sem qualquer reflexão ou preparo.

Estátua localizada em Heihe, na China, retrata uma menina com uma pilha de livros que pesa mais do que um jovem adulto do outro lado segurando um dispositivo digital. A estátua transmite a mensagem de que “o conhecimento tem peso”. (📷famalicaocanal.pt/)
A pressa em opinar e condenar sem conhecimento cria um ambiente em que a aparência de sabedoria se sobrepõe à reflexão real, e a discussão se transforma em confronto de egos, em vez de aprendizado. Notamos isso nos diversos cancelamentos digitais que temos a cada semana.
São Gregório, ao comentar o evangelho em referência, afirma que “quem não não julga a si mesmo antes não sabe julgar o outro com retidão e, se o sabe apenas por ouvir dizer, não poderá julgar com retidão os méritos alheios, porque a consciência da própria inocência não lhe fornece a regra do julgamento” (Aquino, 2021). Talvez aqui esteja a primeira chave de leitura para uma convivência mais harmônica: conhecer a si mesmo antes de apontar o dedo para os erros dos outros.
Por outro lado, o preparo constrói a base para que a confiança seja genuína e sustentável. Um atleta que respeita a disciplina do treino sabe que a excelência exige esforço contínuo, e não apenas autoafirmação.
É como uma pessoa que se enxerga lutadora que se envolve em um combate com um atleta profissional. É bem provável que ela tenha uma opinião diferente sobre si após a luta.
É um desafio para todos nós buscarmos uma reflexão de verdade em meio a um debate virtual em que a velocidade para ser o primeiro comentário e a exposição imediata são valorizadas, mas é essa preparação silenciosa que separa quem é realmente capaz de quem apenas aparenta ser.
Mas então, como nos posicionar? É preciso mudar a perspectiva.
Uma mudança de perspectiva
Nota-se que a provocação de Jesus considerava um contexto importante: as pessoas observavam apenas o comportamento do outro. O rigor da lei – declarado com bravura – e os dedos apontados já condenaram a adúltera sem mesmo a necessidade de um julgamento mais amplo.
Jesus muda essa perspectiva.
Ao consentir que aqueles que não tivessem pecado atirasse a pedra, Jesus exige que cada um observe o seu próprio comportamento e, nesse contexto, imaginassem que aquele mesmo rigor da lei poderia ser aplicado a cada um deles.
Vamos avançar no texto para um desfecho conhecido:
“Continuando, porém, eles a interrogá-lo, levantou-se, e disse-lhes: “O que de vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire a pedra.” Depois, tornando a inclinar-se, escrevia na terra, mas eles, ouvindo isto, foram-se retirando, um após outro, começando pelos mais velhos; e ficou só Jesus com a mulher diante dele.” (JO 8:7-9)
Separar o erro do errante
A conversa continua:
Então Jesus, levantando-se, disse-lhe: “Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Ela respondeu: “Ninguém, Senhor.” Então Jesus disse: “Nem eu te condeno; vai, e não peques mais.” (JO 8:10-11)
Santo Agostinho reforça que ao dizer para que a mulher não peque mais, Jesus perdoou o errante, mas não o erro. (Aquino, 2021). Talvez aqui esteja uma segunda chave de leitura para uma convivência mais harmônica: separar o erro do errante.
Referências
Bíblia de Jerusalém, editora Paulus.
São Tomás de Aquino. Catena Aurea – Exposição contínua sobre os Evangelhos. Vol. 4: Evangelho de São João. Ed. Ecclesiae. Campinas, 2021.
📷Secrets (1908-1912) | Wincenty Wodzinowski (Polish, 1866-1940)