Por que buscar os valores espirituais?
Buscar os valores espirituais é uma necessidade cada vez mais presente, sobretudo em nosso momento histórico marcado pela pressa, pelo excesso de informações e pela busca constante por conquistas materiais, elementos que nem sempre preenchem o nosso vazio interior.
É nesse contexto que a espiritualidade se apresenta como um caminho de reflexão que nos apoia a encontrar propósito e sentido para a vida e Maine de Biran nos ajuda a compreender como a reflexão filosófica pode nos ajudar a encontrar o nosso íntimo e a abertura ao ca,minho para a espiritualidade.
A reflexão filosófica como experiência interior
Maine de Biran (1766–1824) foi um filósofo francês que entendia a reflexão filosófica como um movimento de dobrar-se continuamente sobre si mesmo na experiência interior. Ele diferencia esse movimento da experiência exterior – boa para as ciências positivistas, entretanto incapazes de captar ou apreender a vida humana, pois esta se dá na experiência interior.
A reflexão filosófica é um mergulho na interioridade, de maneira progressiva e assistemática e é nesse mergulho que se descobre o “eu” como a consciência de si mesmo.
Para o autor, o ser humano se compõe de forma inseparável de atividade (psíquico e espiritual) e passividade (corpóreo e material). Esta união íntima se dá na relação, e esta relação vai permear o sentir (posso apenas sentir no corpo) e, por sua vez, o sentir de sentir, quando o indivíduo entra em si mesmo e em sua consciência percebe que está sentindo.
É no sentir de sentir que o ser humano sente os seus sentimentos, base para filosofia (reflexão).
Do esforço à consciência da própria vida
No psiquismo humano existe esta atividade/passividade como uma relação interna e não é uma relação entre sujeito e objeto. A relação está dentro do sujeito, pois o objeto é uma relação exterior, por exemplo, quando toco algo posso sentir, minha vontade pede para que eu deixe de tocar, mas meus músculos podem obedecer ou não. Há uma vontade que dá uma ordem, mas existe também uma resistência para essa vontade. É nesta relação entre a vontade e a resistência que a pessoa tem a consciência do próprio “eu”.
Para ele, a consciência do “eu” não nasce da sensação passiva, mas do esforço voluntário. Por exemplo, quando estou com uma caneta na mão há uma relação entre o “eu – eu” e não entre o “eu – caneta”.
Nesta consciência do “eu” existe uma consciência de causa, em que o ser humano vai construindo a sua existência (vida), e a experiência do esforço contínuo se torna um hábito, tornando o indivíduo consciente de sua própria vida, o seu “eu”, a sua realidade. Neste momento acontece como um segundo nascimento, o de ser pessoa (personalismo).
Ninguém é capaz de tornar-se pessoa sem refletir. O problema é que o hábito torna-se rotina (sem reflexão) e o ser humano pode massificar-se.
O cuidado com o hábito
A experiência do “eu” em sua plenitude exige a vida da consciência que é “atividade e liberdade”. (Reale, 2003)
Por exemplo, enquanto aprendo a escrever, me é exigido um esforço consciente. Após a etapa de aprendizagem, à medida que escrevo, a consciência do esforço diminui e esse ato repetido (hábito) torna o ato quase automático. Biran conclui que quando o esforço diminui, o sentimento do “eu” também enfraquece.
A descoberta da sua própria identidade
Para Biran, “é preciso abandonar as opiniões fúteis e dar as costas a todas as incertezas que estão cheias de livros e tratados. Mas é urgente, ao contrário, ouvir o “sentido íntimo”: ele nos dirá que existe um Ser ordenador de todas as coisas. É no sentido íntimo que nos faz ver Deus na ordem do universo.” (Reale, 2003)
Assim, a filosofia não pode explicar toda a realidade, sobretudo a humana. Ao entrar em si mesmo o ser humano encontra-se com Deus e portanto somente a religião (religare) é capaz de resolver os problemas trazidos pela reflexão filosófica.
O existir humano em sua mais alta qualidade é aberto para a religião e ao descobrir os valores espirituais o indivíduo descobre a sua própria identidade.
Referências
Reale, Giovanni; Antiseri, Dario. História da filosofia — Volume 3: Do Romantismo até nossos dias. São Paulo: Paulus, 2003.
📷The Resurrection (circa 1715) Sebastiano Ricci (Italian, 1659-1734)