Não tem um propósito? Comece por aqui.
Viver com propósito nos aproxima da nossa busca interior pelo sentido das coisas e da própria vida. Quando lhe damos significado, experimentamos a paz e nos distanciamos das picuinhas. Ter visão de propósito é caminhar em direção à realização. Porém, quando não temos isso claro, buscar um propósito pode ser uma tarefa difícil, capaz de nos deixar perdidos e chateados.
Se você não tem um propósito, ou mesmo não sabe por onde começar, o convido a ler esse texto até o final, e terá uma direção para o iniciar a trajetória para encontrar o seu lugar no mundo e fazer a diferença na vida das pessoas.
Um chamado para a ação!
Em seu conhecido sermão da montanha, Jesus nos dá uma direção sobre o que temos que ser para o mundo. Diz ele:
“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens.” (MT 5,13)
Em sua época, o sal era utilizado para duas funções principais: a de dar sabor e a de conservar os alimentos.
São João Crisóstomo (Aquino, 2018) nos traz uma perspectiva de que ao dizer “Vós sois o sal da terra”, Jesus nos convoca para a ação: salgar. E salgar, é não guardar o ensinamento apenas para si ou para um grupo limitado, mas difundir a mensagem para todos.
Jesus nos convoca para a ação: salgar.
E assim como o sal transforma com seu sabor, ao difundir a mensagem é comum que ela também tenha uma ação real na vida das outras pessoas. Não se trata de adular ou afagar, diz Crisóstomo (Aquino, 2018), mas de abalar os que são frouxos. Entretanto, muito sal estraga a comida…
Muito sal estraga a comida
Paulo, nos faz um relato interessante sobre sua forma de pregar. Disse ele: “Irmãos, quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana. Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado.” (1Cor 2,1-2).
Ora, é conhecido que Paulo foi um cidadão romano e com acesso a uma cultura bastante rica, mas esse repertório não se transformava em palavras bonitas ou uma retórica soberba. Ao contrário, em sua missão de evangelização o apóstolo usava um jeito simples. Ele pregou Cristo crucificado, e é a apresentação do amor de Jesus – que ama e convida a amar – que atrai as pessoas e ajuda na tomada de decisão de esvaziar-se a si mesmo e de servir aos outros.
“Não sou mais eu quem vivo, é Cristo quem vive em mim” Paulo de Tarso (Gl 2, 20).
Um desafio para os nossos dias é sair do foco das atenções. Vivemos em ambientes em que nos é estimulado a adoração pelos outros e dos outros, o que pode nos causar uma dependência de elogios alheios. Porém, o sal quando colocado na comida, desaparece. Sentimos os seus efeitos no sabor, mas não o vemos mais. Ser “sal da terra” também significa encontrar o nosso lugar e dar espaço para que Deus faça – por meio de nós – a Sua obra.
Por vezes, infelizmente, alguns cristãos falam muito, mas fazem pouco. Ao sair da igreja, vivem como pessoas que não são tocadas pelo amor de Deus e não transformam (salgam) os ambientes que estão. Pelo contrário, podem até causar escândalos, desestimulando os demais. Para ser sal (na prática), é preciso de uma conversão real.
Mas como ser sal na prática?
Para quem não tem um propósito, ou mesmo tem dificuldades para saber por onde começar a encontrar o seu lugar no mundo e fazer a diferença na vida das pessoas na prática, o primeiro passo é perceber-se como um pecador e limitado, de modo a buscar a conversão. O profeta Isaías traz uma lista de iniciativas que podem nos ajudar a “salgar” os que estão em nosso entorno. Diz ele:
Assim diz o Senhor: Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o e não desprezes a tua carne. Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro e ele dirá: “Eis-me aqui”. Se destruíres teus instrumentos de opressão e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia. (Is 58,7-10)
A lista é grande e possível para começar hoje mesmo: dar de comer, de beber, de vestir, ensinar os que buscam a sabedoria ou rezar pelos falecidos. Precisamos agir como Cristo para sermos de fato sal na terra, para que Jesus seja destacado e não nós mesmos. “Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens.” (MT 5,13).
Referências
Bíblia de Jerusalém, editora Paulus.
São Tomás de Aquino. Catena Aurea – Exposição contínua sobre os Evangelhos. Vol. 1: Evangelho de São Mateus. Ed. Ecclesiae. Campinas, 2018.
📷 Maidens Waiting (1890) | Daniel Ridgway Knight (American, 1839 – 1924)