Por que machucamos quem mais amamos?

8 de abril de 2026

Falar de amor não é fácil, embora já exploramos o tema no texto A diferença entre amar e gostar. Porém, é fácil identificar as pessoas que amamos e queremos ficar próximos, no entanto, também é comum nos percebermos em situações que passamos do limite e acabamos por ferir essas pessoas. Afinal, por que machucamos quem mais amamos?

Não tenho a resposta à provocação do título desse texto e já afirmo de início. Porém, para ajudar a refletir sobre o tema, trago algumas reflexões que perduram e moldam a nossa forma de viver, ainda que inconsciente.

Pode-se dizer que a ideia aqui é trazer uma “nota de rodapé”, explicando brevemente a origem da possível forma como nos relacionamos, com o objetivo de provocar uma reflexão e superar nossos padrões para que – com liberdade – possamos optar pelo amor em sua forma mais primordial.

A it-ficação do outro

O francês Jean-Paul Sartre afirma que a presença de outra pessoa tira o nosso centro de nós mesmos e passamos a ser objeto do outro.

Permita-me uma pausa para explicar esse subtítulo. Na língua inglesa, utiliza-se o “it” para se referir a animais, coisas e objetos para descrever um gênero feminino ou masculino. Quando se trata de pessoa, emprega-se o he (para ele) e she (para ela). Desse modo, o termo it-ficação traduz-se nesse contexto como uma forma de objetificar o outro. Voltemos ao texto.

Para Sartre, nós mudamos quando somos observados. Por exemplo, o olhar do outro me traz experiências de inferioridade, como a vergonha, o pudor e a timidez. O olhar do outro me paralisa e tira a liberdade que eu tinha antes de ser olhado.

O filósofo conclui então que a existência do outro é a razão do nascimento dos conflitos, pois é daí que eu perco a minha liberdade.

“O inferno são os outros.” Jean-Paul Sartre

A visão de Sartre, infelizmente, está muito presente nas nossas relações, por isso é importante a conhecer para superá-la. Por vezes a relação passa por uma objetificação (it-ficação) do outro, de modo que ou ele me serve ou me atrapalha. E quanto mais próximo, mais o outro traz para mim esse sentimento de vergonha, pudor e timidez, tornando-se um “inferno”, razão pela qual eu posso machucá-lo mais do que aos que estão longe.

O desafio da intimidade

Friedrich Nietzsche, defende que não há um Deus e nem todos os deveres que foram estabelecidos por aqueles que o representam. Pelo contrário, “o super-homem substitui os velhos deveres pela vontade própria”. (REALE, 2003, pág. 437).

Na prática, o autor promove o individual perante o coletivo. Ele exalta o indivíduo em sua liberdade absoluta, sobretudo pela afirmação de si mesmo, que é a vontade, o poder e a sua potência, em que o ser humano pode se afirmar constantemente. Para ele, qualquer poder de coação é contra o ser humano.

Nesse sentido, a relação com o outro reflete a perspectiva do eu, em que o “eu” projeta no outro características de si mesmo, demonstrando “amor” ao que na verdade é reflexo de si mesmo, como um elemento de projeção.

“Amamos nosso próximo porque nele vemos a nós mesmos; toda afeição é também um espelho de nossa própria necessidade.” Friedrich Nietzsche

No entanto, tendo o “eu” como ponto de referência, é comum machucar o outro, pois muitas vezes nosso ego ou inseguranças projetam expectativas, ciúmes ou frustrações sobre essa pessoa. A nossa resposta a essas circunstâncias, ironicamente, é causar dor em quem amamos.

A proximidade intensifica as feridas

Por sua vez, Emmanuel Levinas tira o “eu” do centro e estabelece que a ética vem antes da própria identidade do sujeito, ou seja, antes de eu pensar em quem sou, já estou eticamente comprometido com o outro.

Desse modo, quando amamos alguém profundamente, sentimos uma ligação intensa, mas também há expectativa, frustração e medo de perda. Machucamos quem amamos porque estamos constantemente testando, desafiando ou tentando entender essa ligação. Deste modo, qualquer tensão se amplifica.

“A ética é responsabilidade pelo outro, e essa responsabilidade não é simétrica. O rosto do outro nos interpela, nos chama à responsabilidade.” Emmanuel Levinas

Para Levinas, a ética exige o cuidado do outro, e vice-versa, portanto nessa perspectiva o outro pode me exigir mais do que é justo para mim. Essa relação causa dor e exige sacrifícios, que por vezes – em desequilíbrio – podem causar feridas nas relações.

O retorno ao amor

É possível que você tenha se identificado com um dos pensamentos acima, ou os três, como a base para a resposta dessa pergunta que tanto nos provoca “Por que machucamos quem mais amamos?”.

De qualquer forma, como disse Paulo em sua carta aos Romanos, “Efetivamente, eu não compreendo nada do que faço: o que eu quero, não o faço, mas o que eu odeio, faço-o” (RM 7, 15).

O convite que nos fica é retomarmos o amor ensinado por Cristo, que de certo modo organiza as três formas de amar ao afirmar que o segredo da vida está em “amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo” (MT 22, 37-39). Daqui podemos dizer que o grande mandamento, ou seja, o comando, a regra é: amar a Deus, amar ao outro e amar a si mesmo.

Referências

Bíblia de Jerusalém, editora Paulus.

CAPALBO, C. (1998). O “MESMO” E O “OUTRO” NA ÉTICA DE EMMANUEL LÉVINAS. Reflexão, 23(70). Recuperado de <https://periodicos.puc-campinas.edu.br/reflexao/article/view/10871>, Acesso em 3 jan. 2026.

LEVINAS, E. Ética e InfInito , Lisboa, Edições 70, 1988.

REALLE, G.; ANTISERI, D..História da Filosofia: do romantismo até nossos dias. 6 ed. São Paulo: Paulus, 2003. vol. 3

📷An Interlude | William Sergeant Kendall (American, 1869-1938)