O dinheiro vale o seu tempo?
Crescemos com a expressão “tempo é dinheiro” e a integramos de modo que parece que a nossa vida tem sido convertida em um projeto de gestão. Avaliamos nossos dias como se fossem relatórios: metas cumpridas, desempenho, crescimento, fracasso. A lógica que antes pertencia apenas ao mundo do trabalho passou a organizar também a maneira como nos relacionamos com os outros e conosco mesmo.
A vida como um projeto de gestão
A ideia de estabelecer métricas para tudo nos dá a sensação de que temos o controle de todas as coisas, o que resulta em ansiedade quando as circunstâncias não são favoráveis. Em outras palavras, se não consigo controlar o exterior, busco por meio de uma autoavaliação a referência externa de pessoas que aparentemente controlam o mundo, ou seja, preciso de mais fama, poder e dinheiro. Por outro lado, se não consigo controlar meu interior, preciso de remédios para acordar, performar e dormir. Quando isso acontece, o sentimento dominante deixa de ser apenas tristeza, mas surge a culpa, a sensação de inadequação e o esgotamento. Tudo isso pode até levar à depressão.
E não é só isso. Na relação com as pessoas, o sujeito entra num circuito interior para buscar medir a sua performance naquela determinada circunstância.
“”Estou falando com ela agora, será que está sendo interessante?”. Quando me autoavalio, não estou mais com você, estou nesse circuito superegoico. Isso produz cansaço porque é como você levar uma vida dupla: estou com as pessoas e estou na paralela com essa contabilidade íntima.” (Christian Dunker, psicanalista).
Na perspectiva filosófica, esse modo de pensar redefine a maneira como estabelecemos as conexões com o mundo, com o outro e conosco mesmo. O sujeito passa a priorizar essas relações pelo valor monetário que agregam. O filósofo Byung-Chul Han, alerta que “a sociedade do desempenho produz depressivos e fracassados, porque cada um explora a si mesmo acreditando estar se realizando.”
Mas se tempo não é dinheiro, ele serve para que?
Em seu artigo Time & Eternity (Tempo e Eternidade, em tradução livre), o padre Paul D. Scalia nos provoca a um olhar diferente sobre o tempo. O autor lembra que os monges ainda nos séculos XII e XIII desenvolveram o relógio mecânico como instrumento que os ajudava a manter a disciplina e a precisão nos horários de oração ao longo dia. O controle do tempo tinha a finalidade de louvar a Deus e buscar o aperfeiçoamento de si mesmo.
Hoje, nossa relação com o tempo mudou. Ao utilizar o relógio para medir o tempo nessa mentalidade de uma vida como um projeto de gestão, deixamos de usar o tempo e passamos a ser escravos dele.
Já não queremos perder o tempo com os outros, mas ironicamente, não vemos a hora de um período de tempo livre para “matar o tempo”.
Nesse sentido, eliminamos Deus do tempo ao não termos mais tempo para oração, e o aperfeiçoamento de si mesmo se reduz ao tecnicismo. Deixamos os valores e virtudes para nos formar (no sentido de fazermo-nos caber em uma forma, como uma massa de bolo) nessa busca de um “controle” que além de não controlar nada, ainda causa ansiedade e falta de propósito.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja produzir mais, mas reaprender a habitar a própria existência sem tratá-la como um mero negócio. Aceitar que nem tudo precisa render, crescer ou melhorar. Nosso tempo vale muito mais que o dinheiro.
Referências
Amanda Mont’Alvão Veloso (2021). Depressão: ‘Pessoas olham a própria vida como se fosse uma empresa a ser medida pelos resultados’, diz psicanalista. Artigo no site BBC Brasil, disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/geral-56381902>. Acesso em 1 de dezembro de 2025.
Han, B.-C. (2015). A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio D’Água.
Paul D. Scalia (2025). Time and Eternity. Artigo no site The Catholic Thing, disponível em <https://www.thecatholicthing.org/2025/11/30/time-eternity/>. Acesso em 1 de dezembro de 2025.
📷Winding The Mantle Clock (circa 1875-1880) | Alfred Stevens (Belgian, 1823-1906)