Como superar o “fundo do poço”?

4 de fevereiro de 2026

O evangelista Lucas narra a cena em que Jesus estava crucificado, em meio a dois ladrões. Após ser insultado pelo povo que acompanhava o cumprimento da condenação, o Cristo também foi insultado por um dos ladrões, conforme trecho a seguir.

Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” Mas o outro o repreendeu, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”. E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reinado”. Jesus lhe respondeu: “Em verdade eu te digo, ainda hoje estarás comigo no paraíso”. Lc 23,39-43

Ora, podemos considerar “fundo do poço” o exemplo acima, em que há uma experiência de morte iminente, que ocorreu após uma longa sessão de humilhação e espancamento, concorda?

Mas nesse pequeno trecho do evangelho, Lucas nos traz algumas formas para lidar e superar com situações adversas, ainda que não tão radicais.

1. Reconhecer a própria condição e a condição do outro

No texto, enquanto um dos malfeitores insultava Jesus, o “bom ladrão” de imediato reconhece a própria condição. Diz ele: “Para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos”.

Ora, muitas vezes nós mesmos nos colocamos em situações de perigo e de pecado. Nos arriscamos com aquela palavra a mais, aquele gole a mais, ou aquela reação fora do tom. Tudo isso costuma causar um impacto negativo no outro, o que invariavelmente provoca uma reação que poderá nos condenar e punir.

Ao invés de julgar os outros, busque com humildade conhecer e reconhecer-se como uma pessoa que apesar de buscar ser boa, nem sempre é. Somos todos imperfeitos. Ferimos, machucamos sem querer… e às vezes querendo; mas isso nos torna ainda mais humanos. Reconheça. (trecho do texto Por que às vezes não me reconheço?)

Por outro lado, além de reconhecer a própria condição – assumindo a culpa e a coerência da pena – ele também reconhece a condição de Jesus, ao dizer que “Ele não fez nada de mal”. E continua com o pedido para que Jesus lembre-se dele após a sua morte com a entrada no Seu “reinado”.

Ele reconhece portanto que Cristo é vítima de uma injustiça, mas também reconhece a realeza de Jesus, capaz de perdoar os seus crimes devido a sinceridade de suas palavras, conforme destaca São João Crisóstomo. (Aquino, 2020).

Portanto, o primeiro passo é reconhecer a própria condição e a condição do outro, buscando a melhor solução possível.

2. Buscar a melhor solução possível

O “bom ladrão” fez a leitura da situação em que estava, atento ao que havia acontecido e a morte iminente que viria. Ele compreendeu que a melhor solução possível estava no que viria depois da sua morte ao pedir ao Cristo “lembra-te de mim quando entrares no teu reinado”.

São Gregório Magno (Aquino, 2020), reforça que nessa circunstância extrema ele foi capaz de ter , porque acreditou no reinado de Jesus; de ter esperança, ao pedir para entrar nesse reino, e teve caridade, quando repreendeu o malfeitor que insultava Jesus.

3. A melhor solução nem sempre é a que buscamos de imediato

Ora, sejamos sinceros, em situações desfavoráveis nos passa pela cabeça muitas vezes a vontade de “sumir”… de deixar aquele sofrimento. Por isso, não devemos julgar as palavras do malfeitor que reagiu instintivamente ao dizer “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”.

É comum observar muitas pessoas que buscam a Deus apenas por um milagre ou para a solução de seus problemas. Porém, a melhor solução para os nossos problemas nem sempre é a que buscamos de imediato.

O “bom ladrão” compreendeu essa dinâmica e ao reconhecer a própria condição, a condição de Jesus e a melhor solução possível, teve a maior das recompensas quando Jesus diz que “ainda hoje estarás comigo no paraíso”.

Referências

Bíblia de Jerusalém, editora Paulus.

São Tomás de Aquino. Catena Aurea – Exposição contínua sobre os Evangelhos. Vol. 3: Evangelho de São Lucas. Ed. Ecclesiae. Campinas, 2020.

📷 Seated Man At The Table (1886) | Elin Danielson-Gambogi (Finnish, 1861 – 1919)