Como a verdade pode curar a desilusão?
Imagine que de um dia para o outro, toda a estrutura que você construiu ao longo de anos para estabelecer as bases da sua vida se desmorona… você perde o referencial e as suas crenças passam a não fazer mais sentido? Vive o que Viktor Frankl chamaria de vazio existencial, ou seja, a perda das tradições e dos referenciais que davam suporte à sua existência?
Pois bem, foi exatamente isso que os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) viveram após a notícia da morte de Jesus. Com Ele, também morreu a esperança daquele povo. E é nesse cenário de luto e desolação, que Jesus se aproxima não como um juiz, mas como um pedagogo, cuja metodologia se desenrola em três atos fundamentais que espelham o processo de cura e reencontro do sentido.
Se você não conhece o texto (Lc 24, 13-35), recomendo que antes de iniciar a leitura, acesse aqui para lê-lo no original. Isso facilitará a compreensão da provocação que virá a seguir.
A pedagogia de Jesus
A partir do “vazio existencial” vivido pelos dois discípulos, Jesus usa uma pedagogia que os faz compreender melhor o problema e a forma de lidar com ele. Não se trata de mudar de tema ou dizer que os problemas não existem, mas de como compreendê-los e superá-los. E isso se deu, principalmente, em três etapas principais.
1. A Escuta: Jesus toma a iniciativa e se aproxima dos discípulos, se faz de curioso e desentendido, com perguntas que os ajudam a verbalizar os fatos e sentimentos. Jesus permite que os discípulos exponham o seu “porquê” ferido antes de oferecer qualquer resposta.
2. A Palavra: Após ouvir, Jesus ilumina a realidade deles através das Escrituras. Ele não nega os fatos e sofrimentos, mas mostra que o sofrimento e a cruz fazem parte de um propósito maior. Desse modo, Jesus ajuda os discípulos a lerem sua própria história com novos olhos.
3. O gesto concreto: mais do que palavras, Jesus repete a fração do pão, como fizera com os apóstolos (Lucas 22:14-38). Foi na intimidade com Deus que seus “olhos se abriram”, e puderam reconhecer Jesus. E também foi nesse momento que de certo modo se reconectaram consigo mesmos e com os seus propósitos, retomando de imediato a sua missão.

Imagem: Supper at Emaus | Carl Bloch (Danish, 1834-1890) | Artvee.com
O roteiro de Jesus e a santa missa
O Padre Andrés Machado, da diocese de Santo Amaro, São Paulo, traz uma interessante reflexão que nos permite traçar um paralelo sobre o roteiro que Jesus usou com os discípulos de Emaús e a santa Missa:
- Jesus caminhava com eles – procissão de entrada
- Jesus ouviu a desolação dos discípulos: ato penitencial e oração da comunidade
- Jesus apresentou textos e os explicava: leituras e homilia
- Jesus partiu o pão: liturgia eucarística
- Os discípulos foram testemunhar o que viveram: envio
Um dado também interessante é que Lucas não conviveu com Jesus, mas com alguns cristãos da primeira geração. Ao relatar nessa sequência de fatos, é possível inferir que essa dinâmica da missa já ocorria no primeiro século do cristianismo.
Na santa missa temos a oportunidade de vivenciar o roteiro que Jesus preparou aos discípulos de Emaús.
A verdade que nos liberta
Os discípulos de Emaús, que antes caminhavam cabisbaixos e dispersos, agora “levantam-se na mesma hora” para voltar a Jerusalém. O encontro com Jesus não mudou o fato da crucificação, mas mudou o sentido daquele fato.
Será que em nossas desilusões, temos observado ao redor para interpretar de forma correta o que vivemos, ou estamos tão centrados em nosso próprio luto que não percebemos que o propósito caminha ao nosso lado, esperando apenas o convite para abrir os nossos olhos?
Referências
BÍBLIA SAGRADA: Lucas 24, 13-35
FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido. Tradução Walter O. Schlupp, Carlos C Aveline. São Leopoldo/RS: Sinodal, 1985, 135 p. Título original: Trotzdem Ja zum Leben sagen.
📷 Antti (1917) | Venny Soldan-Brofeldt (Finnish, 1863-1945)