A liberdade tem um preço?

7 de outubro de 2026

O professor da Universidade de Harvard e um dos maiores especialistas mundiais na ciência da felicidade humana, Arthur Brooks, traz uma perspectiva que correlaciona a felicidade e a infelicidade. De acordo com o autor, a felicidade tem três pilares principais: o deleite, a satisfação e o propósito.

  • O deleite é o prazer acompanhado de consciência e presença, é como saborear a experiência.
  • A satisfação surge quando você conquista algo que exigiu esforço. Porém, ela costuma diminuir logo depois da conquista. Por isso, o ser humano precisa de novos desafios e crescimento contínuo.
  • O propósito é sentir que sua vida tem significado e impacto além de você mesmo. É, segundo o autor, o pilar mais profundo da felicidade. Com propósito, até as dificuldades mais extremas podem ser superadas.

A “infelicidade” da felicidade

Em contraponto, para cada atributo de felicidade mencionado, Brooks afirma que existe algo como uma infelicidade intrínseca. Por exemplo, para atingir o deleite, ou seja, momentos agradáveis que trazem alegria, preciso de disciplina para esperar esses momentos e limites na relação com o outro. Em outras palavras, preciso viver circunstâncias não tão agradáveis, como a disciplina e espera, para saborear o deleite.

O mesmo acontece com a satisfação, que exige um esforço, a capacidade de lidar com a frustração, e sobrepor a dificuldade durante o processo; e o propósito, que exigirá o sacrifício, a responsabilidade e até sofrimento por algo maior.

É possível concluir que existe uma certa convivência entre felicidade e infelicidade dentro de nós.

Felicidade e infelicidade podem coexistir

Para Brooks, “tornar-se mais feliz é obter mais desses elementos (o deleite, a satisfação e o propósito), de forma equilibrada, e não mais de um e nada de outro.” (Brooks, 2024). Porém, a correlação entre a busca da felicidade com a sua infelicidade intrínseca, “exige que também aceitemos a infelicidade em nossas vidas e a compreensão de que isso não é um obstáculo para nossa felicidade”. (Brooks, 2024).

Brooks reforça no século XXI uma provocação que Aristóteles nos trouxe há mais de 2.300 anos: não dá para ser feliz vivendo uma vida de “qualquer jeito”.

Um dos grandes desafios para nossa geração é que existe um empenho generalizado para separar a correlação entre esforço e conquista.

Aristóteles sustenta que a felicidade surge da prática constante de ações virtuosas, que se formam por hábito, esforço e disciplina. Assim, a felicidade é construída por meio do exercício contínuo do caráter, no qual o esforço necessário para agir bem é justamente o caminho que conduz a uma vida plena e realizada.

Para ser feliz, é preciso pagar o preço.

 

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2002.

BROOKS, A. Construa a vida que você quer: a arte e a ciência de ser feliz. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2024.

📷An Old Man Counting his Money (1635) | Salomon Koninck (Dutch, 1609-1656)