Como superar os nossos medos?
Ultimamente temos nos deparado com cenários caóticos e apocalípticos que têm posto nossa esperança à prova. O atual cenário pós-pandêmico, marcado pelas guerras mundiais, catástrofes climáticas, polarizações políticas, provocam na sociedade o medo e o ressentimento, alimentando o egoísmo e o ódio, juntamente com o pessimismo e a solidão.
Diante deste cenário, uma das emoções mais importantes para nossa autopreservação, mas que, quando não trabalhada, pode nos gerar problema, é o medo. Como dizia Heidegger, o medo convida a viver na impropriedade, ou seja, a não atribuir sentido às coisas, deixando que os outros e as circunstâncias o façam. Não muito diferente, Nietzsche, ao perceber o poder do Estado sobre a dimensão psicológica do povo dizia que o medo é às vezes um instrumento do Estado, dos poderosos que o controlam.
O medo está incumbido dentro de nós e conviver com ele é inerente à nossa existência. Nas palavras de Byung-Chu Han o clima generalizado de medo sufoca qualquer broto de esperança, instalando uma atmosfera depressiva.
Se a liberdade é algo do qual desejamos tanto, o medo e a liberdade se excluem mutuamente, transformando nossa interioridade em uma prisão, asfixiando nossa capacidade de se expressar e até pensar livremente. Antes vivíamos com medo da pandemia, no entanto, hoje vivemos uma pandemia do medo.
Percebo literalmente essa fobia generalizada no meu ofício de professor. Me deparo, constantemente com estudantes marcados pelo medo da solidão, de não serem aceitos pelo outro. Me deparo pelo medo dos pais de deixarem seus filhos arriscarem nas relações, nos estudos, na resolução de conflitos e até mesmo de atravessar uma rua. Como diria Han, o medo vem acompanhado da sensação de estar aprisionado, enclausurado. “O medo obstrui o futuro, fechando-nos o acesso ao possível, ao novo” (HAN, 2024, p.13).
Do medo à esperança
Por isso, diante de uma sociedade marcada por essa emoção intensa e que nos fecha para novas epifanias, precisamos inclinarmo-nos para frente, tentar ver mais longe, olhar para longe, para o futuro. Dessas ações que brotam o sentido etimológico da “esperança”. Ela abre o olhar para o que está por vir. “Quem tem esperança, também fareja, ou seja, tenta ganhar direção, orientação” (HAN, 2024, p. 13).
A esperança, na sua plenitude, desperta em meio à mais profunda desesperança. Não é à toa que Paulo, o apóstolo, já destacava esse paradoxo inerente à esperança: “Gloriamo-nos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não engana” (Rm 5, 3-5).
Ter esperança diante dessa sociedade marcada pelo medo é fundamental. Contudo, o pensamento esperançoso não é otimista. Ao contrário da esperança, ao otimismo, segundo Han (2024), falta qualquer negatividade. Ele não conhece dúvidas e nem desespero. A pura positividade é sua essência. Ele está convencido de que tudo ficará bem.
Para o otimista, o tempo é fechado, então, o futuro, como um espaço aberto de possibilidades, é desconhecido para ele. Nada o surpreende. O futuro lhe parece disponível. O otimista nunca olha para a distância indisponível. Ele não conta com o inesperado, o incalculável.
Ao contrário do otimismo, que não carece de nada, nas palavras de Han, a esperança representa um movimento de busca. É uma tentativa de ganhar apoio e direção, avançando para o desconhecido, o não trilhado, o aberto, o que ainda-não-é, pondo-se a caminho do novo.
Nesse sentido, a esperança também precisa ser diferenciada do “pensamento positivo” e da “psicologia positiva”, que prezam pela rejeição à psicologia do sofrimento e tentam se ocupar exclusivamente com o bem-estar e a felicidade.
A esperança é necessária
A esperança não nega as dimensões inerentes aos seres humanos. Em uma sociedade que prioriza o culto à positividade, as pessoas são isoladas, tornando-se egoístas e sua empatia é desmantelada, porque as pessoas não se interessam mais pelo sofrimento dos outros. Cada um está preocupado com seu próprio bem-estar e sua felicidade, negando a dimensão social da esperança como algo que completa o ser humano enquanto um ser social e que pode curar seus medos quando encontra esperança no outro.
Por fim, poderíamos filosofar infinitamente sobre a necessidade da esperança diante da sociedade da pandemia do medo. Contudo, não poderia deixar de mencionar a fala do Papa Francisco para a abertura do Jubileu da Esperança 2025: “É muito importante, porque a esperança não desilude. O otimismo desengana, a esperança não! Precisamos muito dela nesta época que parece obscura, na qual às vezes nos sentimos perdidos diante do mal e da violência que nos circundam, perante a dor de tantos nossos irmãos. É necessária a esperança!”
Referências
FRANCISCO, Papa. Audiência Geral, 7 de dezembro de 2016. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-05/esperanca-virtude-papas-mensagens.html. Acesso em: 5 mar. 2025.
HAN, Byung-Chul. O espírito da esperança: contra a sociedade do medo. Tradução de Milton Camargo Mota. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
📷 Gutach Woman in a Meadow (1900) | Franz Xaver Gräßel (German, 1861-1948)